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Dec 01st
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Rodeado de altos montes, Drave é um lugar mítico. A visão que do estradão se tem do povoado lá no fundo, é surpreendente. 

Drave
Drave
O Solar dos Martins e a capelinha dedicada à Nossa Senhora da Saúde destacam-se do esceta dos montes, uns atrás dos outros, a recortar-se da luz do poente, é sublime. Sublime é também a perspectiva que a seguir se tem do Vale de Paivô.
A principal festa é a Senhora da Saúde, a 15 de Agosto. 

História de Drave

A povoação da Drave teve o seu princípio, como todas as outras, porém, como e quando, é o que totalmente se ignora; todavia as árvores antigas, castanheiros e tudo o mais, faz presumir que data de muitos séculos. Acha-se colocada no fundo de um elevado outeiro entre a confluência de três ribeiros, sendo estes, o rio de Palhais, que, correndo do norte, a banha do lado direito, - o Ribeirinho e o ribeiro da Bouça, que descem do lado esquerdo e se juntam todos os três no fundo da povoação. Daqui toma o nome de rio da Drave até desaguar no Paivó, à distância de 5 quilómetros; este rio depois, passando em Covelo, vai muito longe desaguar e morrer no rio Paiva, sendo aí já o maior dos seus confluentes.
Drave
Está portanto a Drave colocada numa cova, cercada de enormes e altas montanhas, que, no coração do Inverno, lhe vedam o sol a maior parte do dia, tendo apenas uma garganta ou cortadura da parte do poente; e ainda assim obstruída pelas linguetas das serras, que se entrelaçam. Já teve 4 ou 5 fogos, hoje porém consta só de 3, dois lavradores denominados – os de Baixo e os de Cima – e o Desfeita, carvoeiro: todavia pelas muitas casas de abegoarias do Colado, da parte d'além do rio, com uma boa eira, grande canastro e terras contíguas, figura serem dois povos separados. Cada um dos dois lavradores tem o seu prazo, que compreende as casas, bem como todas as terras lavradias e os montados. São estes prazos quase iguais e por isso deviam ser os dois consortes, nos seus princípios terem iguais haveres, hoje, porém, a casa dos de Baixo ou dos Martins é incomparavelmente mais rica, consequência resultante de terem sempre sido as famílias desta casa sucessivamente melhor dirigidas, e muito mais laboriosas, que é a maior fonte desta riqueza.

Têm os dois consortes vastos e largos montes, que produzem muito carvão os quais de norte a sul, isto é, da serra do Temão e a Serra da Coelheira terão de extensão de 10 quilómetros e de nascente a poente serão 4, figurando assim uma toalha. Neste montados diz a tradição e os vestígios de casas desmoronadas atestam que já houve dois habitantes: um em Palhais, ao norte e a pequena distância da Drave, o qual devia se bom lavrador, como indicam os vestígios de muitas fazendas ao longo do rio, por um e outro lado. Dizem que se apelidava o Braz de Palhais, e que finalmente se fizeram ladrões de colmeias, pelo que foram culpados e desterrados, e assim acabaram. Pelo que, porém, hoje se observa, esse lavrador ou habitante durou talvez séculos, e acabou há mais de três séculos provavelmente.

Muito mais antigo e mais remoto; para o sul da Drave; houve outro habitante, no sítio chamado Casas da Tijosa, de que apenas restam os alicerces das casas. Este sítio era menos próprio para viver e arrotear terras, e não oferecia comodidades, além duma boa fonte da qual carecia o outro de Palhais. Conta-se que fora uma fidalga, que ali viera cumprir degredo.

Fica a Drave a nascente de Covelo de Paivó, sede de freguesia, 10 quilómetros, e ao norte de S. Pedro do Sul, sede de concelho, a 25 quilómetros.

Não obstante ser terra delgada, e sobre fragas, é muito fértil e abundante em milho graúdo (quando não seca), feijões, centeio, castanhas, cera e mel especial. Também produz vinho de sobra para consumo, verde sim, mas saboroso, muito bom linho, hortaliças e couves magníficas. Finalmente, a terra anda bem adubada, mas é grata ao amanho que se lhe faz.
Drave Arouca
PERÍODO 1.º - Francisco Martins 1.º

Remontando pela linha ascendente dos meus representantes deste notável solar ou Casa da Drave, só pude alcançar até aos meus 3. os avós (como dito fica no prólogo) e destes, só pude saber que se chamavam Francisco Martins e Maria Martins e que tiveram pelo menos, 5 filhos falecidos nesta casa, como consta de um velho livro de óbitos, muito antigo, que ainda se encontra no arquivo paroquial de Covelo de Paivó, os quais segundo a ordem dos seus óbitos foram: Cristóvão, João, Francisco, Manuel e António. Destes cinco irmãos somente casou o Francisco, que não era i mais velho ou o primogénito e, diz a tradição, que o chamavam dos estudos que havia encetado com destino à vida eclesiástica, para o fazerem representante da casa, e doarem-lhe os prazos por indicação e espontânea anuência do mais velho. O qual certamente assumiu a administração da casa ainda em solteiro, pois que o prazo de vidas de Palhais foi renovado nele Francisco em 1754, estando ainda solteiro.

PERÍODO 2.º - Francisco Martins 2.º

Este segundo Francisco Martins, meu bisavô, casou efectivamente, aí por 1760, com Maria Gomes que veio da casa do Nicolau de Covas do Monte, o qual, diziam os que ainda a conheceram, era de pequena estatura, mas uma boa, virtuosa e santa mulher, um bom par bem dignos um do outro. Este, ajudado por seus irmãos, com a máxima dedicação, aumentou o casal, arroteando terras, levantando cómeros e fazendo casas, laborando em tudo com muitas dificuldades, por não terem então nem sequer um caminho de carro aberto. Renovou também em si e sua mulher o prazo da Drave em 1764; e sobretudo sustentou, por largos anos ajudado pelo mano João, seu principal agente, várias demandas contra Francisco João seu vizinho e consorte, que era teimoso e travesso; até que finalmente depois de muito litigarem, transigirem, partindo e demarcando as terras, montes e águas; legando assim aos seus vindouros a paz e o sossego de que eles não puderam gozar.

Tanto ele como os seus irmãos celibatários morreram velhíssimos ao que parece e se depreende das datas dos seus óbitos quase sucessivos, segundo o dito livro de óbitos, pois que faleceu, o Cristóvão a 7 de Abril de 1790; o João a 2 de Maio do mesmo ano; o Francisco a 2 de Outubro de 1797; o Manuel a 24 de Julho de 1799; o António a 13 de Outubro de 1807. Em nove anos morreram 4, note-se.

A viúva sobreviveu a seu marido ainda 18 anos, falecendo só a 20 de Setembro de 1815. Havia procriado e deixaram 10 filhos, 5 varões e cinco fêmeas, que foram Manuel, António, José, João, Francisco, Maria, António, Luiza, Bernarda e Rosa. Os quais eram bem apessoados (ainda conheci 4), e (três destes por mais de 20 anos) tão robustos e de tão boa constituição, que todos 10 viveram mais de meio século, e os que não foram vítimas de ataques apopeléticos acabaram careados de velhice.

Destes casaram fora seis: - o António no Corvo; o José em Bordonhos; o João m Sacados; a Luiza em Regoufe, no Quinteiro; a Bernarda em Candal; a Rosa em Covelo, em Fundo de Aldeia: ficando 3 solteiros em companhia de seu irmão primogénito.

Este avantajou-se aos outros irmãos por saber ler e escrever, e pelo mais que na seguinte secção se verá; todos porém eram pessoas honradas, de candura e sinceridade; uns portugueses velhos; e tanto os solteiros como os casados guardavam religiosamente a virtude da castidade. A propósito, diga-se agora de passagem, mas em abono da verdade, tem sido o condão desta família: - 1.º a honestidade e castidade; 2.º a união e a harmonia, chegando até, por duas vezes, a viverem em paz largos anos, nora, sogra e a viúva avó [5]; 3.º bons maridos; 4.º a longevidade e a robustez; este último dom, porém escasseou infelizmente na minha irmandade como, chegando lá se verá.
Drave Arouca
PERÍODO 3.º - Manuel Martins 1.º o especulador e de boa nomeada

Este Manuel Martins, meu avô, tornou-se um homem da época e larga nomeada, pela sua prudência, honradez, candura, verdade e sinceridade, por ser franco e sobejamente serviçal e finalmente por aumentar e engrossar muito o casal.

Casou em 1793, 4 anos antes da morte de seu pai, com Antónia Martins, que veio da “Casa da Eira de Covelo”, mulher de boas formas e bastante beleza, e boas ideias, constância e nobreza de sentimentos, posto que de poucas prendas mulheris, e por isso não era caseira mas inteiramente fragueira e campestre e assim convinha, pois que para o governo e aconchegos da casa havia a sogra e cunhados e mais tarde veio a nora.

No intuito de aumentar os seus recursos e haveres, entrou em especulações. Primeiramente empreendeu a condução em larga escala de carvão torganinho até ao Porto; e para isso, comprou mulas pomposas, até ao número 7, e que, diziam os contemporâneos, eram a flor do gado que então transitava nesta estrada; tomou um criado das bestas, para acarretar com elas até ao Castelo de Paiva; e aí pôs por seu procurador um primo de Covas do Monte, para lho conduzir e vender no Porto. Deste negócio, porém, tirou pouco resultado, por causa dos criados, dois ou três sucessivos, os quais abusando da sua bondade e boa fé, do que mais cuidavam era de engordar a si e às mulas, embora definhasse a bolsa do patrão.

Depois tendo José Henriques da Macieira, subarrendado por contos de réis os dízimos da grande freguesia de Sul, e sendo ele insuficiente para tamanho tráfego, resolveu chamar e oferecer sociedade a Manuel Martins, por conhecer as suas qualidades, saber ler e escrever, e por ter as 7 mulas para acarretar os géneros; o qual depois de alguma hesitação, ponderando a falta de dinheiro (no que aquele já então abundava) aceitou. Foram mais felizes nesta especulação, do que podiam esperar, por virem após a invasão dos Franceses, anos de fome e chegaram por isso os géneros a preços fabulosos; tendo eles a prudência de se retirarem a tempo e antes da baixa, com o que engrossaram muito as duas casas, e ficaram tão íntimos que enlaçaram matrimonialmente os seus filhos, fazendo troca.

O Martins que tinha paixão pela propriedade, vendo-se com dinheiro comprou muitas fazendas na freguesia de Sul, por Aldeia e ultimamente no Outeiro, de maneira que além de um pequeno princípio que já havia em Aldeia, foi ele quem comprou quase todas as que possuímos até há pouco tempo, além das muitas que deserretaram depois.

Fez também várias obras já na Drave e já na dita freguesia de Sul.

Se é que já não estava feito pelo seu pai, abriu o primeiro caminho de carro que houve na Drave, o da Voltinha a comunicar com o Sul, chegando somente ao fundo do povo da Drave o qual passados anos, continuou pelo Muro Redondo até ao Merouço a comunicar com Regoufe.

Fez na Drave pelo menos 2 casas, a do Lagar e a da Varanda, acarretando ainda os materiais às costas e em jogais.

Fez tonéis e magnificas caixas de tábuas de castanho inteiriças, a da casa do Lagar, a da Cozinha e a da Casa Nova. Benfeitorizou as terras, levantou açudes, reedificou o do Pego que as cheias haviam levado e o muito mais que me não consta. Em Sul fez a casa da Loja e lagar da Aldeia, a muito dispendiosa mina do Freixo, no Outeiro, a casa da Loja e grande Lagar da Eira, muitos e bons tonéis.

Dizem que tiveram 10 filhos, assim como os seus pais, porém só 8 se acham nos livros dos assentos os quais, segundo a ordem de seus nascimentos, foram:

- Maria, Manuel, Luíza, José, João, António, Tereza e Joaquim. Estes, máxime varões, sobressaíram muito aos seus antepassados, por saberem todos ler e escrever, não obstante só andar na escola o José, e por serem tão curiosos e hábeis, que trabalhavam de pedreiro, carpinteiro e enxamblador com perfeição admirável em simples jeitosos.
Aldeia da Drave
PERÍODO 4.º - Manuel Martins da Costa 2.º o Grande

Se lhe dou o apelido de Grande é porque ele não só igualou, em algumas coisas, a seu pai, mas até o excedeu na representação e larga nomeada, desmentindo assim os que opinavam e diziam que não viria segundo Manuel Martins.

Na verdade, este meu pai tinha muitos e excelentes dotes de corpo e alma: era direito, alto, magro, corado, cabeça pequena, peito estreito, porém pernas e traços musculosos e de grossas canas, uma boa e bela figura; dotado de uma valentia e força hercúlea, no que tinha sua basófia e desvanecimento, sendo por isso pronto em a ostentar e provar. Era de uma alma verdadeiramente grande, magnânimo, intrépido, desembaraçado, franco, generoso, serviçal com abnegação, verdadeiro, sincero, jovial e agradável; por isso, e pela sua atitude imponente a todos incutia respeito, e atraía ao mesmo tempo, de maneira que tinha muitos amigos e nenhum inimigo. Era benigno e até sofredor para com os homens e súbditos, porém era irascível e até espancador dos animais irracionais, defeito que não tivera o seu pai. Tinha talento, presença de espírito, boa memória e retentiva e uma razão desenvolvida; palavras prontas e acertadas e um falar tão conceituoso e correcto, que admirava num lavrador, que mal aprendeu a ler e escrever. Por isso e, à falta de outros mais dignos, exerceu os cargos de camarista e admnistrador substituto no extinto concelho de Sul.

No ano de 1810, casaram-no em casa de seus pais com Maria Henriques de Figueiredo, de Macieira, indo para lá, em troca da irmã Maria (como já se disse), tendo ele 14 anos e ela 24; a qual era baixa, gorda, olhos pequenos, branca e final de pele; era porém menos inteligente e atilada; não obstante, tinha as suas prendas caseiras, trabalhadeira, arranjadeira e muito amiga de ter. Seu génio era inteiramente diferente do de seu marido, por isso lhe estava quase sempre em oposição, e lhe resmungava, máxime quando ele fazia alguma obra, ou comprava trastes que o progresso requeria, pelo que ele a chamava – minha prega debalde - gracejando, pois que sempre a amou e prezou estremosamente. Enquanto teve saúde, foi muito alegre, cantador, estúrdio e brincalhão; do que a mulher se não importava, nem teve nunca a menor suspeita, porque confiava plenamente, e podia confiar, na sua fidelidade.

Quando morreu o pai, andava ele em 25 anos de idade, e logo assumiu a administração da casa e patrocínio dos seus irmãos menores, que o amavam e respeitavam como filhos humildes, ao que ele correspondia com gratidão, estimando-os e prezando-os tanto que, exceptuando o José, levou a mal e custou-lhe os olhos da cara quando os outros, muito mais tarde saíram e também a mulher e anos, que, quando casou o João, e, passados anos, morreu o António, e logo saiu o Joaquim, tivemos uma pena e saudade louca, por conhecermos que deixavam um vácuo, que tarde ou nunca seria preenchido.

O pai não havia deixado dinheiros, antes pelo contrário, dívidas passivas, cerca de um conto de réis, e também algumas activas pois que, dizem, era tão serviçal, que algumas vezes, para não importunar os que lhe deviam, e emprestar grátis, levantava o dinheiro a juros. Portanto sorveu o mais breve que pôde as dívidas paternas e foi-se compondo com os irmãos, dotando-os a dinheiro, segundo o que o seu pai havia dado a Luiza, 300.000 réis, gratificando porém com mais aos dois últimos que saíram. Achava-se ele bebeficiado com os prazos, terças do pai, mãe e avó, e com as legítimas dos 3 tios celibatários e por isso nem tanto pertenceria aos irmãos se optassem por legítima.
Aldeia da Drave
retirado da "Monografia e árvore genealógica dos Martins da Drave" por Pe João Nepomuceno de Almeida Martins e Dr Manuel Martins da Costa Magalhães


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