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ESA conquista mais um prémio versão para impressão enviar por e-mail
Escrito por Educare.pt   
22-Jul-2008
Projecto desenvolvido pelas secundárias de Arouca e Júlio Dinis de Ovar ganha Concurso Jovens Cientistas e Investigadores. A ideia foi trabalhada durante três meses. Testaram-se vários modelos, uns mais simples outros mais complexos, até se encontrar o mais adequado e rápido. Estudou-se a teoria, afinaram-se as técnicas e passou-se à acção. Mais dois meses e a tarefa ficou concluída. "A ameaça xenobiótica: Paracentrotus lividus e a barrinha de Esmoriz" venceu a 16.ª edição do Concurso Jovens Cientistas e Investigadores da Fundação da Juventude com dois mil euros de prémio. Alunos da Secundária de Arouca e da Secundária Júlio Dinis de Ovar preparam-se para participar na final europeia que se realiza em Copenhaga em Setembro. Na edição portuguesa mais participada de sempre, com 97 trabalhos de 232 jovens, o concurso pretende estimular o aparecimento de jovens talentos e promover ideias de cooperação e o intercâmbio entre jovens cientistas.

Estudar os efeitos da poluição local foi o ponto de partida do projecto. Em Arouca, as atenções centraram-se na poluição que contamina a água subterrânea e dos rios com metais pesados, principalmente manganês e arsénio, provenientes das minas abandonadas de volfrâmio. Em Ovar, os olhares concentraram-se no problema da poluição da barrinha de Esmoriz que apresenta preocupantes níveis de contaminação. Até que se chegou aos embriões de ouriço-do-mar que permitem monitorizar a qualidade das águas costeiras.

"Uma sensação de satisfação por ter colaborado num projecto que considero ter muita qualidade e que foi muito mais estimulante do que qualquer outro trabalho realizado ao longo do secundário. Foi-me possibilitada a hipótese de participar num projecto de investigação ‘a sério'", conta Beatriz Moreira, aluna da Secundária de Arouca. "Por outro lado, como pessoa que se preocupa com o ambiente, é uma sensação muito gratificante poder contribuir para facilitar a monitorização da qualidade da água e, consequentemente, contribuir para resolver este problema, através de um modelo simples, económico e eficaz, logo mais viável na aplicação prática", acrescenta.

Pelo meio, várias dúvidas. "Dúvidas na execução prática no laboratório, pois era um trabalho que exigia rigor e que acarretava responsabilidades quantos aos resultados. O meu principal receio era chegar a conclusões erróneas e comprometer a fiabilidade do projecto", explica a estudante. "Para realizarmos este trabalho, tivemos que explorar conceitos de Biologia que vão para além dos conteúdos programáticos desta disciplina no Secundário. Nessa medida, foi um desafio fazer investigação numa área um pouco mais avançada. O facto de ser um projecto feito em parceria com outra escola também constituiu um desafio, pois conheci outras pessoas e outros métodos de trabalho", afirma.

O trabalho acabou por ser reconhecido. "A concretização do modelo de biomonitorização para arsénio, manganês e PCB (poluentes orgânicos persistentes) revelou-se um quebrar da rotina experimental que encontramos quando estudamos a bibliografia centrada nessa área. A maioria dos estudos é feita de uma forma genérica e sequenciada, não se particularizando cada poluente e, principalmente, limitando-se a documentar os efeitos obtidos e não relevando a interpretação e o potencial de aplicação prática que tais resultados podem representar", adianta Vasco Sá Pinto, aluno da Secundária Júlio Dinis de Ovar. Um projecto com mérito. "Ao especificarmos o estudo para os três poluentes seleccionados conseguimos encontrar resultados únicos e identificadores de cada um deles, além de graduar os testes aplicados por níveis de relevância (entenda-se especificidade) por poluente. Alguns dos resultados mais interessantes prenderam-se com a indução de apoptose em tratamentos com PCB, a indução de necrose em tratamentos com arsénio e a alta sensibilidade dos testes com oócitos, testes ignorados pela maioria dos estudos revistos", realça.

Beatriz Moreira completa: "Este modelo de biomonitorização oferece um conjunto de vantagens relativamente às análises físico-químicas, pois é mais sensível, rápido e económico. Os seus reduzidos custos permitem implementar projectos de biomonitorização durante longos períodos de tempo, o que potencia futuros projectos de descontaminação e, consequente, melhoria da qualidade das águas testadas." Vasco acrescenta: "O modelo de biomonitorização que concebemos tem um potencial considerável na área da vigilância ecológica de ambientes marinhos, podendo substituir as generalizadas análises físico-químicas, mais lentas, menos sensíveis e de custos extremamente mais elevados. Este estudo, pioneiro na sua área, promove positivamente a disseminação dos bioensaios na temática poluição e capta atenções para possíveis investimentos em novos sistemas de ecomonitorização".

Expectativas em Copenhaga? "Não se pensa em competição. Projectamos sim uma massiva troca de experiências e de conhecimentos, no que será uma oportunidade de ouro para estabelecer novos contactos, novas parcerias. Portugal estará bem representado", assegura Vasco. "Pretendemos representar bem o país e, a nível pessoal, que seja uma experiência enriquecedora. O contacto com outros jovens investigadores e cientistas será, com certeza, muito positivo e inspirador. É uma oportunidade única de aprender e conhecer o que se faz actualmente de mais avançado e inovador em ciência", responde Beatriz.

Modelo simples e eficaz

O professor Filipe Ressurreição, da Escola Secundária de Arouca e ligado ao Laboratorium do Visionarium - Centro de Ciência do Europarque, entrou em cena quando os estudantes se questionaram sobre qual o modelo a utilizar que permitisse implementar um programa de monitorização consistente. "Fiz a ligação entre os dois projectos, que tinham basicamente o mesmo propósito, e propus um trabalho conjunto utilizando como modelo o ouriço-do-mar já que o destino destas águas é o mar", recorda. Surgiu assim a ideia de se estudar o efeito dos poluentes na reprodução de ouriço-do-mar (fecundação e desenvolvimento embrionário) e de tentar identificar efeitos específicos (marcadores), produzidos por cada um dos poluentes que permitissem discriminar a sua presença. "Se tivéssemos êxito tínhamos encontrado um método expedito e económico que permitiria monitorizar os níveis destes poluentes em ecossistemas marinhos", revela o docente.

O objectivo foi atingido. Usou-se um modelo que tem sido utilizado um pouco por todo o mundo, mas com novidades para o caminho da ciência. "Apesar de se ter usado esse modelo, nunca se identificaram marcadores específicos para um determinado poluente. São realizados basicamente os mesmos testes para todos os poluentes. Este trabalho permitiu demonstrar que, para estes poluentes, há testes que são mais adequados do que outros e que há determinados efeitos que são produzidos apenas por um determinado poluente", explica o coordenador do projecto. Há exemplos. "Os espermatozóides podem ser mais sensíveis a um determinado poluente do que os oócitos, mas pode acontecer a situação contrária com outro poluente. Para além desta especificidade a nível do teste (toxicidade induzida em espermatozóides, oócitos ou embriões), para um mesmo teste os efeitos produzidos por poluentes diferentes podem ser muito diferentes - inibir a fecundação, induzir alterações específicas no desenvolvimento embrionário, necrose ou apoptose".

Um projecto que pode fazer a diferença? Filipe Ressurreição responde que sim. "Pelo menos é um bom começo. Para os poluentes que estudámos permite estabelecer programas simples de alerta. Permite fazer uma monitorização da qualidade da água de um modo simples, económico e eficaz", afirma. E expectativas para Copenhaga? "Acreditamos poder representar bem Portugal. Vai ser difícil conseguir um prémio. Há trabalhos fabulosos. Mas estou certo de que vai ser uma experiência fantástica para estes jovens investigadores. Vão contactar com outros jovens investigadores também apaixonados pela ciência e com investigadores de renome".

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