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Questões de desenvolvimento
Arouca é uma simpática vila aninhada nas faldas da
Serra da Freita. O seu relativo isolamento tem-na preservado da brutal
descaracterização que atingiu as vizinhas Vale de Câmbra e Oliveira de
Azeméis, felizes pastos dos nossos empreiteiros e promotores
imobiliários, sempre, sempre , ao lado do poder autárquico...
Estranhamente, aquela vila é mais conhecida pelo seu pão-de-ló do que
pelo fabuloso convento, exemplo único das grandes casas religiosas cujo
recheio foi preservado da selvajaria cultural que se seguiu à sua
extinção no século XIX.
O próprio folheto turístico oficial, que é distribuído colado a
revistas, quando fala de Arouca só refere a vitela assada e a doçaria
conventual, mas não o que é hoje um dos melhores museus religiosos do
país. Valha-lhes Sta. Mafalda que é a sua padroeira! Infelizmente, a
maior parte das construções antigas da vila desapareceu e são poucas as
casas com interesse que restam. Ou seja, ao julgarem que destruindo o
antigo e construindo novo, que neste caso nem é muito mau, iam de
braços abertos ao encontro do almejado desenvolvimento, ficaram sem o
que é hoje um dos poderosos trunfos para o conseguir. Mas este é
actualmente, com excepção do Alentejo e dos Açores, o panorama geral
das nossas povoações.
A ignorância, a cupidez e a insensibilidade têm sido as grandes aliadas
do nosso desordenamento e descaracterização urbanística. Se isso tem
feito ganhar fortunas aos promotores imobiliários, e não só, tem, pelo
contrário, causado um enorme prejuízo ao aproveitamento das nossas
potencialidades como país turístico, bem como aos valores
sócio-culturais nacionais. Para quando o apuramento económico desta
situação para depois poder convencer os nossos responsáveis? Por outro
lado, as imponentes serras vizinhas estão relativamente bem preservadas
e é um prazer calcorrear os seus diversos caminhos e visitar as suas
aldeias ainda não descaracterizadas.
Uma última referência ao facto de nos arredores de Arouca se situar uma
jazida de fósseis de trilobites, de importância internacional, que têm
vindo a ser postos em evidência pela exploração de uma pedreira de
ardósia. Graças ao empenho e à sensibilidade dos seus proprietários,
aqueles exemplares têm sido preservados, classificados e já expostos
publicamente, constituindo hoje uma notável colecção científica. Mas a
iniciativa daqueles foi mais longe e, para o ano, essa colecção poderá
ser vista no museu que estão a construir, até agora sem apoios
oficiais, embora daqui resultem óbvios benefícios para a região.
Arouca, pode assim ser tomada como exemplo de um concelho que, embora
interior e com alguns aspectos negativos, possui valores culturais e
ambientais e pessoas com iniciativa e sensibilidade que serão de
importância decisiva para o seu futuro desenvolvimento.
Miguel Ramalho
10:06 14 Junho 2005
In Jornal Expresso
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