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Cronista do Jornal Expresso escreve sobre Arouca versão para impressão enviar por e-mail
14-Jun-2005
Questões de desenvolvimento

Arouca é uma simpática vila aninhada nas faldas da Serra da Freita. O seu relativo isolamento tem-na preservado da brutal descaracterização que atingiu as vizinhas Vale de Câmbra e Oliveira de Azeméis, felizes pastos dos nossos empreiteiros e promotores imobiliários, sempre, sempre , ao lado do poder autárquico...

Estranhamente, aquela vila é mais conhecida pelo seu pão-de-ló do que pelo fabuloso convento, exemplo único das grandes casas religiosas cujo recheio foi preservado da selvajaria cultural que se seguiu à sua extinção no século XIX.

O próprio folheto turístico oficial, que é distribuído colado a revistas, quando fala de Arouca só refere a vitela assada e a doçaria conventual, mas não o que é hoje um dos melhores museus religiosos do país. Valha-lhes Sta. Mafalda que é a sua padroeira! Infelizmente, a maior parte das construções antigas da vila desapareceu e são poucas as casas com interesse que restam. Ou seja, ao julgarem que destruindo o antigo e construindo novo, que neste caso nem é muito mau, iam de braços abertos ao encontro do almejado desenvolvimento, ficaram sem o que é hoje um dos poderosos trunfos para o conseguir. Mas este é actualmente, com excepção do Alentejo e dos Açores, o panorama geral das nossas povoações.

A ignorância, a cupidez e a insensibilidade têm sido as grandes aliadas do nosso desordenamento e descaracterização urbanística. Se isso tem feito ganhar fortunas aos promotores imobiliários, e não só, tem, pelo contrário, causado um enorme prejuízo ao aproveitamento das nossas potencialidades como país turístico, bem como aos valores sócio-culturais nacionais. Para quando o apuramento económico desta situação para depois poder convencer os nossos responsáveis? Por outro lado, as imponentes serras vizinhas estão relativamente bem preservadas e é um prazer calcorrear os seus diversos caminhos e visitar as suas aldeias ainda não descaracterizadas.

Uma última referência ao facto de nos arredores de Arouca se situar uma jazida de fósseis de trilobites, de importância internacional, que têm vindo a ser postos em evidência pela exploração de uma pedreira de ardósia. Graças ao empenho e à sensibilidade dos seus proprietários, aqueles exemplares têm sido preservados, classificados e já expostos publicamente, constituindo hoje uma notável colecção científica. Mas a iniciativa daqueles foi mais longe e, para o ano, essa colecção poderá ser vista no museu que estão a construir, até agora sem apoios oficiais, embora daqui resultem óbvios benefícios para a região. Arouca, pode assim ser tomada como exemplo de um concelho que, embora interior e com alguns aspectos negativos, possui valores culturais e ambientais e pessoas com iniciativa e sensibilidade que serão de importância decisiva para o seu futuro desenvolvimento.





Miguel Ramalho


10:06 14 Junho 2005
In Jornal Expresso

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