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Notícias arrow Noticias arrow Cultura arrow Os filhos da Roda - Mais um contributo para a história de Arouca
Os filhos da Roda - Mais um contributo para a história de Arouca versão para impressão enviar por e-mail
Escrito por José Cerca   
27-Nov-2007
Motivo de breve referência, por parte do cicerone do Mosteiro de Arouca, para qualquer visitante que a ele se dirija, no intuito de conhecer a história e a riqueza patrimonial do nosso ex-libris, a Roda, colocada em duas das principais entradas de acesso ao Mosteiro, desperta sempre uma curiosidade para quem as transpõe, curiosidade essa legítima, mas impossível de satisfazer, no âmbito de uma curta visita ao Mosteiro.
Escrita num Português muito acessível, esta obra, abordando um tema muito interessante e intimamente ligado ao nosso Mosteiro, desvenda mais um dos muitos segredos da história de Arouca.
Em boa hora o dr. Afonso Veiga, com a publicação de mais uma das suas obras sobre a história de Arouca, muito justamente designada “Os filhos da Roda” veio contribuir para a satisfação dessa curiosidade, desvendando algumas interessantes pistas sócio-históricas sobre a “Roda” conventual.
Começando por fazer uma breve resenha histórica sobre a assistência à infância em Portugal, até à revolução democrática de 1974, o autor faz, seguidamente, uma interessante referência local a alguns dos motivos socio-económicos que terão contribuído para o elevado aparecimento dos “filhos da fragilidade”, como eram chamados em meados do sec.XVIII, os filhos nascidos de ligações extra-matrimoniais e que irão, de certo modo, alimentar a instituição da Roda do Mosteiro de Arouca.
Embora uma das principais causas sociais que implementaram as Rodas conventuais sejam a numerosa existência dos tais “filhos da fragilidade”, a verdade é que existiam muitos outras causas de abandono infantil naquela época e às quais Afonso Veiga faz uma breve, mas fundamentada referência local, no período que vai de 1786 a 1834.
A sua investigação leva-o a concluir que, perante as extremas carências que afectavam muitas famílias, o recurso à Roda do Mosteiro era, por vezes, um acto de amor, no sentido em que, tal acto poderia permitir a sobrevivência dessas crianças, até porque no Mosteiro de Arouca, rico como era, haveria sempre a garantia de alimento, agasalho e, naturalmente, de algum maternal carinho.
Curiosa é também a relação que o autor faz entre o número de expostos na Roda, não só com as diversas estações do ano, mas também com determinados ciclos litúrgicos e ainda com o clima político que o País vivia, concluindo que a disponibilidade de recursos alimentares sazonais, bem como a conjuntura político-social do País e a estrita observância religiosa, em determinadas quadras litúrgicas, tinham implicação directa no movimento das Rodas do Mosteiro de Arouca.
Filhos da Roda

O futuro dos sobreviventes

Uma outra linha de investigação interessante que o autor segue nesta sua obra é relacionada com o futuro dos sobreviventes que passam pela roda, concluindo que, na maior parte dos casos, terá sido um futuro muito breve, dada a elevada mortalidade infantil que, por essa altura, afectava não apenas o Concelho de Arouca, como todo o País, tendo ficado célebre em Arouca a expressão do “S. Miguel dos Anjinhos” para exprimir uma trágica realidade, espelhada em muitos canteiros para crianças, reservados nos cemitérios paroquiais.

As Rodas do sec.XXI

O problema subjacente à realidade das Rodas monacais, mantém-se, de certo modo, com o passar dos séculos, adaptado, no entanto, à evolução sócio-económica e política das próprias sociedades.
Embora com outra designação e com outros contornos sociais, o problema da pobreza, do abandono infantil, da marginalização e da existência de outros “filhos da fragilidade”, continua, infelizmente, bem presente nas sociedades contemporâneas, a arouquense, inclusive.
Embora extintas em 1867, por legislação liberal, outras “Rodas” surgiram para darem, de certo modo, resposta a estes problemas sociais e económicos que, em qualquer época, afectam sempre uma importante camada das nossas sociedades, por maior progresso e desenvolvimento que se verifique globalmente.
Consciente disso, Afonso Veiga inseriu em “Os Filhos da Roda” uma breve referência a algumas instituições arouquenses que, quais Rodas do sec.XXI, pretendem acolher nelas aqueles que, tais como outrora, não foram bafejados pela sorte de uma existência normal.
São instituições sociais,  alicerçadas na generosidade e no desapego de cidadãos comuns que pretendem acolher na sua “Roda” não só crianças e jovens pobres, mas também aqueles seres humanos que, por motivos físicos ou intelectuais, se sentem inadaptados à sociedade e que precisam do apoio de uma família que não tiveram ou pela qual foram rejeitados.
Numa curta resenha histórica, Afonso Veiga traça o nascimento e o desenvolvimento de algumas dessas “Rodas” sociais em Arouca, tais como o Patronato, hoje designado por “Centro Paroquial de Promoção Social Rainha Santa Mafalda”, criado em 1949;  a Associação para a Integração das Crianças Inadaptadas de Arouca (AICIA), criada em 1987 e o Centro Paroquial de S. Salvados do Burgo, criado em 1995.

 O lançamento do livro

Foi precisamente e, intencionalmente, que a apresentação ao público de “Os filhos da Roda” teve lugar numa destas instituições, a AICIA, a quem o autor ofereceu a edição, no passado dia 23 de Novembro.
Com a presença de numeroso público, usaram da palavra, além do autor da obra, o Vice-Presidente da Direcção da AICIA, Dr. António Vilar e o Presidente da Direcção, Dr. Armando Zola, a quem  coube também escrever o prefácio a esta publicação.
A sessão terminou com as palavras do Presidente da Câmara, Eng. Artur Neves, que se congratulou com a publicação de mais uma obra sobre o imenso e rico património histórico de Arouca.
Escrita num Português muito acessível, esta obra, abordando um tema muito interessante e intimamente ligado ao nosso Mosteiro, desvenda mais um dos muitos segredos da história de Arouca.
Muitos outros  haverá, certamente, à espera que investigadores, como o autor desta obra, desvendem os seus segredos guardados, desde há muito, pelo pesado pó da história.
Refira-se, como nota final, que o produto da venda desta publicação reverte a favor da AICIA, lançada agora na construção de uma nova “Roda” transformada, dentro de algum tempo, num magnífico lar de acolhimento para pessoas, física e intelectualmente, inadaptadas.
É seguramente através da existência destas excelentes “Rodas”, atrás referidas e nascidas à sombra da influência do Mosteiro de Arouca que a preocupação pela assistência social constitui uma importante marca de solidariedade social na população arouquense.
"Filhos da Roda" - Apresentação na AICIA
"Filhos da Roda" - Apresentação na AICIA

Filhos da Roda
"Filhos da Roda" - Apresentação na AICIA

"Filhos da Roda" - Apresentação na AICIA
"Filhos da Roda" - Apresentação na AICIA


Nota: Capa retirada do "Meu Rumo"

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Comentários (4)add comment

Dr Carlos Mnauel Rocha Martins disse:

Antes de mais os meus sinceros Parabéns ao Dr. Veiga por este trabalho.
Ainda não li o livro e infelizmente não participei na apresentação.
O meu comentário não é somente para elogiar este livro mas todo o empenho do Dr Veiga pela história de Arouca. O nosso concelho tem uma história riquíssima de fazer inveja a concelhos digamos "mais chiques". Parabéns pela coragem de não deixar cair a história de Arouca
Ass. Carlos Martins
 
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Novembro 28, 2007
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Dario Tomé disse:

No que possa respeitar ao autor desta obra - Dr. Afonso Veiga - o meu comentário não o surpreenderá pois o meu muito estimado Amigo, por ser pessoa da mais elevada estatura moral, ética e cultural é um Homem (com H grande) que, embora não rejeite elogios, não os espera nem com eles se envaidece. De todo o modo não posso deixar de, publicamente, lhe manifestar o meu apreço e lhe dar os parabéns por nos deixar mais este contributo histórico e científico que, sei, fruto de muito trabalho.Gostaria de, aqui, deixar um pequeno apontamento; O Dr. Afonso Veiga desde há muito se apaixonou por esta sua terra de adopção - Arouca. Prova disso é já o elevado número de obras que produziu sobre a História de Arouca nas quais sobressai, para além da sua competência como historiador, a sua grande preocupação humanística quando derrama sobre as páginas das suas obras a sua visão da História - dos homens, com os homens, para os homens, sem esquecer o mundo material e imaterial em que este intervém.Do Dr. Afonso Veiga já pude ter a honra e o prazer de ler: José Pereira Arouca, Luis Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, Educar, Condicionalismos sócio-económicos e culturais em Arouca, Carlos Gimac - Arquitecto da Igreja e do Coro de Arouca, Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda de Arouca e Frei Simão de Vasconcelos.Parabéns Dr. Afonso Veiga. Continuo impressionado com as sua grandes capacidades de trabalho que não se resumem à investigação histórica como muito bem sabem os arouquenses. Sinto-me muito honrado por me ter entre os seus Amigos e aqui fico à espera da sua próxima obra. Dario Tomé
 
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Novembro 29, 2007
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A. J. BRANDÃO DE PINHO disse:

Uma vez mais e também por esta via felicitar o Dr. Afonso Veiga por este seu último trabalho e, também assim, pela pertinência e oportunidade do mesmo. Conheço bem os arquivos que motivaram o trabalho que agora deu à estampa e também a vontade imensa em trabalhar todos aqueles dados e curiosidades que não raras vezes nos desviam a atenção do assunto que ali nos leva. Por isso, fico contente que o Dr. Veiga tenha tido a disponibilidade e vontade de trabalhar mais este aspecto da História de Arouca. Mas, também o sentido de oportunidade ao fazer associar este trabalho à construção do lar residência que agora vai começar a ser construído na AICIA.
Por isso, pelo tema abordado; pela história das instituições que vão acolhendo "os filhos de ninguém" e são referidas neste trabalho; pelas lições e pelo objectivo determinado em dar condições aos diferentes ou filhos de "má sorte" para que se sintam iguais e integrados, vai este trabalho muito além de um simples livro.
 
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Novembro 30, 2007
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Luis Goncalves disse:

"...A minha mesa situava-se junto à Roda (onde as cozinheiras colocavam louça, talheres, travessas, que nós transportávamos para a mesa..." (página 9 do livro da minha autoria Histórias d'Hotel).
Refiro-me ao ano de 1965 em que saí de casa de meus pais em Travanca (Amarante) para ir estudar para o Colégio Salesiano de Arouca, onde permaneci durante 2 anos, após os quais rumei ao Estoril para iniciar a minha vida profissional em Hoteis.
A leitura do artigo "Filhos da Roda" veio iluminar a minha mente que, durante tantos anos, tem tentado descobrir o segredo para sobreviver neste mundo complexo e esquece a descoberta da cultura.
Muito obrigado
Luis Goncalves
www.constancia.info
 
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Fevereiro 05, 2008
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