Terça, 27 Novembro 2007 16:16
Escrito por José Cerca
Motivo de breve referência, por parte do cicerone do Mosteiro de Arouca, para qualquer visitante que a ele se dirija, no intuito de conhecer a história e a riqueza patrimonial do nosso ex-libris, a Roda, colocada em duas das principais entradas de acesso ao Mosteiro, desperta sempre uma curiosidade para quem as transpõe, curiosidade essa legítima, mas impossível de satisfazer, no âmbito de uma curta visita ao Mosteiro.
Escrita num Português muito acessível, esta obra, abordando um tema muito interessante e intimamente ligado ao nosso Mosteiro, desvenda mais um dos muitos segredos da história de Arouca.
Em boa hora o dr. Afonso Veiga, com a publicação de mais uma das suas obras sobre a história de Arouca, muito justamente designada Os filhos da Roda veio contribuir para a satisfação dessa curiosidade, desvendando algumas interessantes pistas sócio-históricas sobre a Roda conventual.
Começando por fazer uma breve resenha histórica sobre a assistência à infância em Portugal, até à revolução democrática de 1974, o autor faz, seguidamente, uma interessante referência local a alguns dos motivos socio-económicos que terão contribuído para o elevado aparecimento dos filhos da fragilidade, como eram chamados em meados do sec.XVIII, os filhos nascidos de ligações extra-matrimoniais e que irão, de certo modo, alimentar a instituição da Roda do Mosteiro de Arouca.
Embora uma das principais causas sociais que implementaram as Rodas conventuais sejam a numerosa existência dos tais filhos da fragilidade, a verdade é que existiam muitos outras causas de abandono infantil naquela época e às quais Afonso Veiga faz uma breve, mas fundamentada referência local, no período que vai de 1786 a 1834.
A sua investigação leva-o a concluir que, perante as extremas carências que afectavam muitas famílias, o recurso à Roda do Mosteiro era, por vezes, um acto de amor, no sentido em que, tal acto poderia permitir a sobrevivência dessas crianças, até porque no Mosteiro de Arouca, rico como era, haveria sempre a garantia de alimento, agasalho e, naturalmente, de algum maternal carinho.
Curiosa é também a relação que o autor faz entre o número de expostos na Roda, não só com as diversas estações do ano, mas também com determinados ciclos litúrgicos e ainda com o clima político que o País vivia, concluindo que a disponibilidade de recursos alimentares sazonais, bem como a conjuntura político-social do País e a estrita observância religiosa, em determinadas quadras litúrgicas, tinham implicação directa no movimento das Rodas do Mosteiro de Arouca.
O futuro dos sobreviventes
Uma outra linha de investigação interessante que o autor segue nesta sua obra é relacionada com o futuro dos sobreviventes que passam pela roda, concluindo que, na maior parte dos casos, terá sido um futuro muito breve, dada a elevada mortalidade infantil que, por essa altura, afectava não apenas o Concelho de Arouca, como todo o País, tendo ficado célebre em Arouca a expressão do S. Miguel dos Anjinhos para exprimir uma trágica realidade, espelhada em muitos canteiros para crianças, reservados nos cemitérios paroquiais.
As Rodas do sec.XXI
O problema subjacente à realidade das Rodas monacais, mantém-se, de certo modo, com o passar dos séculos, adaptado, no entanto, à evolução sócio-económica e política das próprias sociedades.
Embora com outra designação e com outros contornos sociais, o problema da pobreza, do abandono infantil, da marginalização e da existência de outros filhos da fragilidade, continua, infelizmente, bem presente nas sociedades contemporâneas, a arouquense, inclusive.
Embora extintas em 1867, por legislação liberal, outras Rodas surgiram para darem, de certo modo, resposta a estes problemas sociais e económicos que, em qualquer época, afectam sempre uma importante camada das nossas sociedades, por maior progresso e desenvolvimento que se verifique globalmente.
Consciente disso, Afonso Veiga inseriu em Os Filhos da Roda uma breve referência a algumas instituições arouquenses que, quais Rodas do sec.XXI, pretendem acolher nelas aqueles que, tais como outrora, não foram bafejados pela sorte de uma existência normal.
São instituições sociais, alicerçadas na generosidade e no desapego de cidadãos comuns que pretendem acolher na sua Roda não só crianças e jovens pobres, mas também aqueles seres humanos que, por motivos físicos ou intelectuais, se sentem inadaptados à sociedade e que precisam do apoio de uma família que não tiveram ou pela qual foram rejeitados.
Numa curta resenha histórica, Afonso Veiga traça o nascimento e o desenvolvimento de algumas dessas Rodas sociais em Arouca, tais como o Patronato, hoje designado por Centro Paroquial de Promoção Social Rainha Santa Mafalda, criado em 1949; a Associação para a Integração das Crianças Inadaptadas de Arouca (AICIA), criada em 1987 e o Centro Paroquial de S. Salvados do Burgo, criado em 1995.
O lançamento do livro
Foi precisamente e, intencionalmente, que a apresentação ao público de Os filhos da Roda teve lugar numa destas instituições, a AICIA, a quem o autor ofereceu a edição, no passado dia 23 de Novembro.
Com a presença de numeroso público, usaram da palavra, além do autor da obra, o Vice-Presidente da Direcção da AICIA, Dr. António Vilar e o Presidente da Direcção, Dr. Armando Zola, a quem coube também escrever o prefácio a esta publicação.
A sessão terminou com as palavras do Presidente da Câmara, Eng. Artur Neves, que se congratulou com a publicação de mais uma obra sobre o imenso e rico património histórico de Arouca.
Escrita num Português muito acessível, esta obra, abordando um tema muito interessante e intimamente ligado ao nosso Mosteiro, desvenda mais um dos muitos segredos da história de Arouca.
Muitos outros haverá, certamente, à espera que investigadores, como o autor desta obra, desvendem os seus segredos guardados, desde há muito, pelo pesado pó da história.
Refira-se, como nota final, que o produto da venda desta publicação reverte a favor da AICIA, lançada agora na construção de uma nova Roda transformada, dentro de algum tempo, num magnífico lar de acolhimento para pessoas, física e intelectualmente, inadaptadas.
É seguramente através da existência destas excelentes Rodas, atrás referidas e nascidas à sombra da influência do Mosteiro de Arouca que a preocupação pela assistência social constitui uma importante marca de solidariedade social na população arouquense.

"Filhos da Roda" - Apresentação na AICIA

"Filhos da Roda" - Apresentação na AICIA

"Filhos da Roda" - Apresentação na AICIA
Nota: Capa retirada do
"Meu Rumo"