Arouca.biz

Notícias de Arouca

Sunday
Sep 07th
Text size
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size
Notícias arrow Noticias arrow Cultura arrow Entrevista a José António Rocha
Entrevista a José António Rocha versão para impressão enviar por e-mail
Escrito por Arouca.biz   
28-Jul-2006
José António RochaO Arouca.biz teve o privilégio de entrevistar recentemente o poeta arouquense José António Rocha, a propósito do seu livro de poesia «o rebentar das águas» recentemente publicado pela Associação Cultural e Recreativa de Mansores. A entrevista publica-se em seguida:

Fale-nos de si, brevemente.
O meu nome é José, sou de Mansores e vivo na região de Lisboa. Entre muitas outras coisas, escrevo poemas.

Contudo, o primeiro texto do seu livro começa precisamente com a expressão «não escrevo poemas»...
É verdade, porque os poemas não se escrevem. Os poetas é que se inscrevem nos poemas que julgam escrever. Os poemas, como dizia Fernando Pessoa, acontecem, “aconteceu-me um poema”, costumava ele dizer.

Fale-nos da escrita deste livro.
O livro não o escrevi enquanto tal. Fui escrevendo poemas desde os 18 anos e a certa altura percebi que mais cedo ou mais tarde teria que publicá-los e dá-los aos amigos. A princípio ia escrevendo os poemas e lendo-os ou enviando-os às pessoas com quem convivia. Isso acabou por construir uma certa imagem de mim como uma espécie de poeta-promessa que havia que concretizar. A certa altura já me senti um Ega, que é uma personagem de Os Maias do Eça de Queiroz que passa o tempo a prometer o seu livro “memórias de um átomo”, mas nunca chega a escrevê-lo. No meu caso, os poemas estavam escritos, faltava apenas o livro. E, tirando o objectivo principal que é mesmo a divulgação dos poemas pelos meus amigos e amigos da palavra poética, a edição do livro foi uma forma de realizar aquilo que fora prometendo.

Porquê este título?
O rebentar das águas é uma expressão que as pessoas que trabalham na agricultura usam quando se referem àquele fenómeno anual do revigoramento das fontes e nascentes de água, sobretudo as que se localizam nos montes, e que durante o verão secaram ou quase secaram. Quando as águas rebentam, o vale celebra-o, porque é um sinal da vida. Claro que também existe o sentido da experiência maternal, mas não é a esse que me refiro, embora não andem distantes.

Porque é que decidiu publicar o livro em Mansores?
Bem, por um lado, um livro de poesia de alguém desconhecido e com a modéstia deste livro, nenhuma editora convencional lhe pega; por outro lado, a Associação Cultural e Recreativa de Mansores (ACRM) afigurou-se-me como a instituição ideal para alcançar o meu objectivo principal com a edição do livro que é, como disse, fazê-lo chegar aos amigos. E foi uma oportunidade para dar alguma coisa à terra de que tanto tenho recebido.

O livro tem estado a ser bem recebido?
Direi que sim. Ainda só no sábado passado é que comecei a distribui-lo. Depois, no domingo, dia 23, a ACRM fez o lançamento lá em Mansores e foi uma óptima experiência. Trouxe quase 20 amigos de Lisboa, mais todos os outros lá da terra e apoiaram-me imenso. Entretanto, as pessoas a quem tenho oferecido o livro ou que o têm comprado na ACRM têm-no elogiado. Ainda ontem me telefonaram a agradecer e a elogiar, o que me estimula muitíssimo.

Há um lugar específico para Arouca no seu universo poético?
Há, embora não esteja explícito nas palavras, cada uma delas traz dentro muito de Arouca, sobretudo experiências e saudades. Por exemplo, o lançamento do livro fez-se a muitos poucos metros da escola onde aprendi a escrever. Aquela escola, ali, naquela freguesia do concelho, foi um verdadeiro berço do livro, foi onde aprendi a escrever tudo o que tenho escrito. Para mim, foi como se 16 anos depois de sair daquela escola para continuar os estudos na secundária de Arouca, ali voltasse agora, a Mansores, para oferecer uma pequena parte do que ali recebi. Uma espécie de filho pródigo e agradecido.

Identifica-se com os poemas que escreveu?
Enquanto escritor, sinto-me muito distante do que aqui escrevi. A maioria dos poemas tem cerca de 5 anos. E em 5 anos um homem morre e nasce tantas vezes! Já pensei no assunto e, se me perguntarem se sou o autor do livro, responderei «sou»; mas se me perguntarem se sou eu quem habita os versos do livro, responderei «fui». Um homem muda. É claro que continuo a ser eu quem habita os versos do livro. Lembro-me, aliás, de um poema de Ruy Belo chamado canção do lavrador, em que dizia «os versos que faço sou-os» e adiante «Mas mais que poema meu / isto que dispo sou eu». Embora com alguma distância, há certos poemas em que me sinto nu e, como filho de Adão que sou, a nudez embaraça-me.

O que é para si a poesia?
Não sei! Isto é, há já 10 anos que procuro sabê-lo e cada vez o sei menos. Creio cada vez mais que a poesia não é daquelas coisas que se sabe “o que são”, mas sim que se saboreia “que são” sem que palavras hajam para dizê-las.

Já está a trabalhar no próximo?
Não propriamente, mas estou a trabalhar num livro sobre Arouca... espero que daqui a uns dois anos esteja cá fora.

Ficamos a aguardar. Muito obrigado pela disponibilidade e boa sorte.

Eu é que agradeço ao Arouca.biz a oportunidade e o esforço que tem feito pela divulgação de Arouca junto daqueles que estamos, quer dentro, quer fora.

Relacionado:

Comentários (0)add comment

Escreva seu Comentario
Precisa estar logado para postar um comentário. Por favor registre-se se caso nao tenha uma conta

busy
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >

Login

(Utilizadores do fórum em aroucaonline.com terão de recuperar password para 1º acesso)