Foi apresentado no passado mês de Dezembro, em Oeiras, um disco duplo (2 CDs) intitulado Vozes de nós, da autoria do grupo Cramol, com um total de 46 músicas tradicionais oriundas das várias regiões de Portugal.
Dito isto e apenas isto, poderia o leitor interrogar-se do interesse da publicação desta breve nota. Creio que o satisfará saber que 10 destas 46 músicas tradicionais são interpretações de peças recolhidas em Arouca, publicadas no Cancioneiro de Arouca, de Vergílio Pereira, e no Cancioneiro Popular Português de Michel Giacometti e de Fernando Lopes Graça. As localidades do Concelho de Arouca surgem, no seu conjunto, e com largo destaque, como a principal fonte destas músicas.
O lugar privilegiado que o disco dá às peças recolhidas em Arouca é um óptimo sinal do reconhecimento do nosso património musical e um justo prémio para o esforço daqueles que, não sendo dos nossos, promoveram a sua conservação, recolhendo-o, registando-o e tornando-o acessível aos intérpretes.
O grupo Cramol foi criado em Oeiras, em 1979, por algumas mulheres da região que desde então se têm juntado para interpretar o canto tradicional português. Cantam sem outros instrumentos que não sua própria voz e, embora sejam mulheres urbanas, o seu trabalho é de permanente aproximação às raízes em que foram geradas as músicas que interpretam. E isso percebe-se quando se ouvem. Vozes de nós é o segundo disco que o grupo edita; no seu percurso figuram colaborações com nomes como Júlio Pereira, José Mário Branco ou Amélia Muge; em termos de actuações, contam-se centenas em Portugal e em diversos países europeus; desconheço se já actuou em Arouca; se o não fez, fica o desafio às autoridades culturais da nossa terra... para que o convide.
Embora me sinta um humilde leigo nisto da etnologia e da música tradicional portuguesa, parece-me que experiências como este Vozes de nós é testemunho de que a globalização, mais do que ser diabolizada como vaga de empobrecimento cultural, deve ser aproveitada como instrumento de preservação e divulgação das nossas tradições culturais. Dirão alguns que interpretações desenraizadas como estas se arriscam a desvirtuar e a teatralizar o contexto vital daquilo que interpretam mas que não experimentaram. É possível. Quem conta um conto, acrescenta um ponto. Mas a cultura, ao ser vivida pelos seus criadores, sempre sofreu evoluções, pelo que não me parece que devamos ter medo de recriá-la, mesmo fora do seu contexto vital. Desde logo, porque em vez de uma atitude de defesa (que podemos ilustrar com a imagem daqueles museus ou colecções de património guardados a sete chaves), seremos levados a um caminho de re-aproximação, de estudo e de divulgação (que é aquilo que actualmente os museus, arquivos e bibliotecas se esforçam por promover em relação às suas colecções).
Em Arouca têm surgido nos últimos anos variados movimentos associativos e projectos de recriações históricas em torno do nosso património e da nossa identidade culturais; um museu municipal (julgo que de pendor etnográfico) está em construção; e, entre estes, surgem outros sinais de valorização do nosso património cultural, como é o caso do projecto Velhas palavras novas leituras. O projecto do Cramol, surgido em Oeiras e não se centrando em Arouca, acaba por se enquadrar nos projectos acima referidos. É que nem só nós gostamos do nosso património e nem só nós defendemos, divulgando-o, aquilo que é nosso. Nosso, como quem diz... porque as paternidades biológicas quantas vezes ficam aquém das paternidades só afectivas... e há veios subterrâneos da memória colectiva que rebentam longe dos locais onde se formaram. Seja bem-vindo quem vier por bem, portanto.
Este Vozes de nós poderá ser um orgulho para todos nós, arouquenses; foi motivo de particular comoção para mim que, estando fora, fui subitamente surpreendido com um presente que me religa à terra de onde venho.
Dito isto e apenas isto, poderia o leitor interrogar-se do interesse da publicação desta breve nota. Creio que o satisfará saber que 10 destas 46 músicas tradicionais são interpretações de peças recolhidas em Arouca, publicadas no Cancioneiro de Arouca, de Vergílio Pereira, e no Cancioneiro Popular Português de Michel Giacometti e de Fernando Lopes Graça. As localidades do Concelho de Arouca surgem, no seu conjunto, e com largo destaque, como a principal fonte destas músicas.
O lugar privilegiado que o disco dá às peças recolhidas em Arouca é um óptimo sinal do reconhecimento do nosso património musical e um justo prémio para o esforço daqueles que, não sendo dos nossos, promoveram a sua conservação, recolhendo-o, registando-o e tornando-o acessível aos intérpretes.
O grupo Cramol foi criado em Oeiras, em 1979, por algumas mulheres da região que desde então se têm juntado para interpretar o canto tradicional português. Cantam sem outros instrumentos que não sua própria voz e, embora sejam mulheres urbanas, o seu trabalho é de permanente aproximação às raízes em que foram geradas as músicas que interpretam. E isso percebe-se quando se ouvem. Vozes de nós é o segundo disco que o grupo edita; no seu percurso figuram colaborações com nomes como Júlio Pereira, José Mário Branco ou Amélia Muge; em termos de actuações, contam-se centenas em Portugal e em diversos países europeus; desconheço se já actuou em Arouca; se o não fez, fica o desafio às autoridades culturais da nossa terra... para que o convide.
Embora me sinta um humilde leigo nisto da etnologia e da música tradicional portuguesa, parece-me que experiências como este Vozes de nós é testemunho de que a globalização, mais do que ser diabolizada como vaga de empobrecimento cultural, deve ser aproveitada como instrumento de preservação e divulgação das nossas tradições culturais. Dirão alguns que interpretações desenraizadas como estas se arriscam a desvirtuar e a teatralizar o contexto vital daquilo que interpretam mas que não experimentaram. É possível. Quem conta um conto, acrescenta um ponto. Mas a cultura, ao ser vivida pelos seus criadores, sempre sofreu evoluções, pelo que não me parece que devamos ter medo de recriá-la, mesmo fora do seu contexto vital. Desde logo, porque em vez de uma atitude de defesa (que podemos ilustrar com a imagem daqueles museus ou colecções de património guardados a sete chaves), seremos levados a um caminho de re-aproximação, de estudo e de divulgação (que é aquilo que actualmente os museus, arquivos e bibliotecas se esforçam por promover em relação às suas colecções).
Em Arouca têm surgido nos últimos anos variados movimentos associativos e projectos de recriações históricas em torno do nosso património e da nossa identidade culturais; um museu municipal (julgo que de pendor etnográfico) está em construção; e, entre estes, surgem outros sinais de valorização do nosso património cultural, como é o caso do projecto Velhas palavras novas leituras. O projecto do Cramol, surgido em Oeiras e não se centrando em Arouca, acaba por se enquadrar nos projectos acima referidos. É que nem só nós gostamos do nosso património e nem só nós defendemos, divulgando-o, aquilo que é nosso. Nosso, como quem diz... porque as paternidades biológicas quantas vezes ficam aquém das paternidades só afectivas... e há veios subterrâneos da memória colectiva que rebentam longe dos locais onde se formaram. Seja bem-vindo quem vier por bem, portanto.
Este Vozes de nós poderá ser um orgulho para todos nós, arouquenses; foi motivo de particular comoção para mim que, estando fora, fui subitamente surpreendido com um presente que me religa à terra de onde venho.
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