| Breve nota sobre a divulgação da nossa música popular |
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| Escrito por José António Rocha | |
| 16-Jan-2008 | |
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Dito isto e apenas isto, poderia o leitor interrogar-se do interesse da publicação desta breve nota. Creio que o satisfará saber que 10 destas 46 músicas tradicionais são interpretações de peças recolhidas em Arouca, publicadas no Cancioneiro de Arouca, de Vergílio Pereira, e no Cancioneiro Popular Português de Michel Giacometti e de Fernando Lopes Graça. As localidades do Concelho de Arouca surgem, no seu conjunto, e com largo destaque, como a principal fonte destas músicas. O lugar privilegiado que o disco dá às peças recolhidas em Arouca é um óptimo sinal do reconhecimento do nosso património musical e um justo prémio para o esforço daqueles que, não sendo dos nossos, promoveram a sua conservação, recolhendo-o, registando-o e tornando-o acessível aos intérpretes. O grupo Cramol foi criado em Oeiras, em 1979, por algumas mulheres da região que desde então se têm juntado para interpretar o canto tradicional português. Cantam sem outros instrumentos que não sua própria voz e, embora sejam mulheres urbanas, o seu trabalho é de permanente aproximação às raízes em que foram geradas as músicas que interpretam. E isso percebe-se quando se ouvem. Vozes de nós é o segundo disco que o grupo edita; no seu percurso figuram colaborações com nomes como Júlio Pereira, José Mário Branco ou Amélia Muge; em termos de actuações, contam-se centenas em Portugal e em diversos países europeus; desconheço se já actuou em Arouca; se o não fez, fica o desafio às autoridades culturais da nossa terra... para que o convide. Embora me sinta um humilde leigo nisto da etnologia e da música tradicional portuguesa, parece-me que experiências como este Vozes de nós é testemunho de que a globalização, mais do que ser diabolizada como vaga de empobrecimento cultural, deve ser aproveitada como instrumento de preservação e divulgação das nossas tradições culturais. Dirão alguns que interpretações desenraizadas como estas se arriscam a desvirtuar e a teatralizar o contexto vital daquilo que interpretam mas que não experimentaram. É possível. Quem conta um conto, acrescenta um ponto. Mas a cultura, ao ser vivida pelos seus criadores, sempre sofreu evoluções, pelo que não me parece que devamos ter medo de recriá-la, mesmo fora do seu contexto vital. Desde logo, porque em vez de uma atitude de “defesa” (que podemos ilustrar com a imagem daqueles museus ou colecções de património guardados a sete chaves), seremos levados a um caminho de re-aproximação, de estudo e de divulgação (que é aquilo que actualmente os museus, arquivos e bibliotecas se esforçam por promover em relação às suas colecções). Em Arouca têm surgido nos últimos anos variados movimentos associativos e projectos de recriações históricas em torno do nosso património e da nossa identidade culturais; um museu municipal (julgo que de pendor etnográfico) está em construção; e, entre estes, surgem outros sinais de valorização do nosso património cultural, como é o caso do projecto Velhas palavras novas leituras. O projecto do Cramol, surgido em Oeiras e não se centrando em Arouca, acaba por se enquadrar nos projectos acima referidos. É que nem só nós gostamos do nosso património e nem só nós defendemos, divulgando-o, aquilo que é nosso. Nosso, como quem diz... porque as paternidades biológicas quantas vezes ficam aquém das paternidades “só” afectivas... e há veios subterrâneos da memória colectiva que rebentam longe dos locais onde se formaram. Seja bem-vindo quem vier por bem, portanto. Este Vozes de nós poderá ser um orgulho para todos nós, arouquenses; foi motivo de particular comoção para mim que, estando fora, fui subitamente surpreendido com um presente que me religa à terra de onde venho. Relacionado:
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